segunda-feira, novembro 12, 2007

terça-feira, novembro 06, 2007

E a neve que chega....




Pena ter sido tão pouca....

sábado, maio 26, 2007

Ahoj my amis!

E finalmente escrevo qualquer coisa neste blog.... Quando surgiu a oportunidade de vir para a República Checa trabalhar, muitos foram os que me disseram "Vai, porque vai ser uma boa oportunidade". Será que vai ser mesmo uma boa oportunidade? Acho que ainda é cedo para responder a essa questão, mas tudo indica que irei aprender muitas coisas novas...
Pra já, mantenho algumas reservas... Até porque, uma coisa é viver aqui umas semanas e outra é viver aqui durante um ano! À parte a diferença da localização geográfica, existem muitas outras diferenças entre viver em Portugal e viver na República Checa. Algumas diferenças são-me um pouco indiferentes, mas há outras que me afectam bastante... Sobretudo o clima e a alimentação!

Poema da auto-estrada

Voando vai para a praia
Leonor na estrada preta.
Vai na brasa, de lambreta.

Leva calções de pirata,
vermelho de alizarina,
modelando a coxa fina
de impaciente nervura.
Como guache lustroso,
amarelo de idantreno,
blusinha de terileno
desfraldada na cintura.

Fuge, fuge, Leonoreta.
Vai na brasa de lambreta.

Agarrada ao companheiro
na volúpia da escapada
pincha no banco traseiro
em cada volta da estrada.
Grita fingido,
que o receio não é com ela,
mas por amor e cautela
abraça-o pela cintura.
Vai ditosa, e bem segura.

Como um rasgão na paisagem
corta a lambreta afiada,
engole as bermas da estrada
e a rumorosa folhagem.
Urrando, estremece a terra,
bramir de rinoceronte,
enfia pelo horizonte
como um punhal que se enterra.
Tudo foge à sua volta,
o céu, as nuvens, as casas,
e com os bramidos que solta
lembra um demónio com asas.

Na confusão dos sentidos
já nem percebe, Leonor
se o que lhe chega aos ouvidos
são ecos de amor perdidos
se os rugidos do motor.

Fuge, fuge, Leonoreta.
Vai na brasa de lambreta.

António Gedeão, Poesias Completas



--
   Ana Cardoso

sexta-feira, março 09, 2007

Elogio ao Amor

Quero fazer o elogio do amor puro.
Parece-me que já ninguém se apaixona de verdade. Já ninguém quer viver um
amor impossível. Já ninguém aceita amar sem uma razão. Hoje as pessoas
apaixonam-se por uma questão de prática. Porque dá jeito. Porque são colegas
e estão ali mesmo ao lado. Porque se dão bem e não se chateiam muito. Porque
faz sentido. Porque é mais barato, por causa da casa. Por causa da cama. Por
causa das cuecas e das calças e das contas da lavandaria.
Hoje em dia as pessoas fazem contratos pré-nupciais, discutem tudo de
antemão, fazem planos e à mínima merdinha entram logo em "diálogo".

O amor passou a ser passível de ser combinado. Os amantes tornaram-se
sócios. Reúnem-se, discutem problemas, tomam decisões. O amor transformou-se
numa variante psico-sócio-bio-ecológica de camaradagem.
A paixão, que devia ser desmedida, é na medida do possível. O amor tornou-se
uma questão prática. O resultado é que as pessoas, em vez de se apaixonarem
de verdade, ficam "praticamente" apaixonadas.

Eu quero fazer o elogio do amor puro, do amor cego, do amor estúpido, do
amor doente, do único amor verdadeiro que há. Estou farto de conversas,
farto de compreensões, farto de conveniências de serviço.

Nunca vi namorados tão embrutecidos, tão cobardes e tão comodistas como os
de hoje. Incapazes de um gesto largo, de correr um risco, de um rasgo de
ousadia, são uma raça de telefoneiros e capangas de cantina, malta do "tá
tudo bem, tudo bem", tomadores de bicas, alcançadores de compromissos,
bananóides, borra-botas, matadores do romance, romanticidas.

Já ninguém se apaixona? Já ninguém aceita a paixão pura, a saudade sem fim,
a tristeza, o desequilíbrio, o medo, o custo, o amor, a doença que é como um
cancro a comer-nos o coração e que nos canta no peito ao mesmo tempo?

O amor é uma coisa, a vida é outra.
O amor não é para ser uma ajudinha. Não é para ser o alívio, o repouso, o
intervalo, a pancadinha nas costas, a pausa que refresca, o pronto-socorro
da tortuosa estrada da vida, o nosso "dá lá um jeitinho sentimental". Odeio
esta mania contemporânea por sopas e descanso.

Odeio os novos casalinhos.
Para onde quer que se olhe, já não se vê romance, gritaria, maluquice,
facada, abraços, flores. O amor fechou a loja. Foi trespassada ao pessoal da
pantufa e da serenidade. Amor é amor. É essa beleza. É esse perigo. O nosso
amor não é para nos compreender, não é para nos
ajudar, não é para nos fazer felizes. Tanto pode como não pode. Tanto faz. É
uma questão de azar. O nosso amor não é para nos amar, para nos levar de
repente ao céu, a tempo ainda de apanhar um bocadinho de inferno aberto.

O amor é uma coisa, a vida é outra. A vida às vezes mata o amor. A "vidinha"
é uma convivência assassina. O amor puro não é um meio, não é um fim, não é
um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver
com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. Não dá para
perceber. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a
nossa alma a desatar. A desatar e a correr atrás do que não sabe, não
apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a
ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz
mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida
é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que
se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se
alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O
coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a
vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o
nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro
não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer
sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive
feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.

A vida é uma coisa, o amor é outra.

A vida dura a vida inteira, o amor não. Só um mundo de amor pode durar a
vida inteira. E valê-la também.

--
 Miguel Esteves Cardoso, in Expresso